Bate-bola Bem Sacado: As Meninas do Tênis das Paralimpíadas

Você acompanhou os jogos Paralímpicos Rio 2016? Foi tão lindo e emocionante assistir aos atletas vencendo desafios e mostrando toda sua garra e determinação. E olha que máximo: nós conseguimos entrevistar duas grandes atletas do tênis em cadeira de rodas, que participaram das competições deste ano. Uma é a Natalia Mayara, de 22 anos, considerada a melhor atleta do Brasil e a vigésima do mundo. A Rejane Cândida, de 39 anos, hoje é a segunda melhor atleta do ranking brasileiro.

 

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Confira a entrevista

Bem Sacado: Há quanto tempo você pratica tênis?

Natalia: Comecei aos 12 anos e pratico tênis há 10 anos.

Bem Sacado:  Por que vocês escolheram esse esporte?

Natalia: Na verdade, foi meio por acaso. Eu era nadadora e por meio da natação conheci o tênis. Eu treinava na piscina do CTF, mas sempre ficava de olho na quadra ao lado. Em um certo dia, o treinador de tênis me perguntou se eu gostaria de experimentar o esporte.  No primeiro contato me identifiquei totalmente. Foi o fato de me sentir desafiada, toda vez que pisava na quadra, que me fez continuar.

Rejane: Sou de uma família grande e meu pai nunca aceitou minha deficiência. Era muito dependente de todos. Com 14 anos, meu pai me tirou da escola e disse que eu não precisava estudar nem trabalhar, pois ele conseguia me sustentar. Com 17 anos, resolvi fugir de casa. Sabia que tinha condições de estudar e trabalhar. Fiquei dois anos sem contato com minha família. O esporte veio na minha vida para acrescentar. Queria provar que conseguiria vencer. E, com o tênis, eu poderia vencer com o meu próprio esforço, sem depender de ninguém. Fui a primeira mulher a competir no tênis em cadeira de rodas no Brasil. Em 2006, entrei para a equipe brasileira.

Bem Sacado: Vocês já praticaram outro esporte antes?

Natalia: Sim, a natação. Eu nadei durante 1,5 ano e cheguei a ir ao Mundial Juvenil de Natação. Ganhei 3 medalhas. Hoje, nado só como preparação física e relaxamento muscular.

Rejane: Joguei por 6 meses basquete.

Bem Sacado: Como vocês entraram nas Paralimpíadas?

Natalia: Fui campeã do Parapan de Toronto, em 2015, o que me garantiu uma classificação direta para as Paralimpíadas.

Bem Sacado: O que aconteceu com vocês para terem essa deficiência?

Natalia: Eu tinha dois anos de idade e morava em Recife quando fui atropelada na calçada por um ônibus. Tive que amputar as duas pernas na mesma hora!

Rejane: Tive poliomielite com 2 meses de vida. Mudei para Brasília por conta da Rede Sarah (hospital de referência para deficientes).

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Bem Sacado: O que o tênis representa na sua vida?

Natalia: O tênis é a minha vida. Eu penso em tênis 24h por dia. Tudo que eu faço é pensando nisso. Tudo que vivi até hoje foi por meio do tênis. Os países que conheci, as línguas que aprendi, as culturas que conheci. A minha personalidade foi muito moldada por este esporte…minha determinação e minha garra. O esporte faz parte de mim!

Bem Sacado: O que você sente ao competir?

Natalia: Eu me sinto viva! Capaz de fazer qualquer coisa. Sinto desafiada, motivada. Costumo falar que prefiro competir do que treinar.  Quando estou competindo, sinto realmente o meu trabalho dentro da quadra. É minha paixão!

Bem Sacado: Vocês já tiveram uma experiência marcante ou engraçada em quadra?

Natalia: Bom, sou uma pessoa muito desastrada. Certa vez ganhamos a competição de duplas no Pan e quando fui festejar, abracei a Rejane com toda força e a desequilibrei. Ela saiu totalmente da cadeira e ficou nos meus braços, mas os pés dela estavam amarrados na cadeira de rodas e não tinha percebido. Ela, coitada, caiu no chão. Aí continuamos a comemorar no chão e eu tentando soltá-la. Essa imagem ficou marcada. O Comitê Paralímpico lançou um vídeo de todas as modalidades e, no tênis, essa é a imagem que mais passa. Posteriormente foi feito um clipe em que o Ronaldinho Gaúcho fez uma música para o movimento paralímpico e passa essa nossa imagem.

Bem Sacado: Vocês têm algum patrocínio?

Natalia: Muito difícil. Se para o esporte olímpico já é complicado, o paralímpico que tem menos visibilidade é mais difícil ainda. Hoje não tenho nenhum patrocínio financeiro, só tenho alguns equipamentos da Babolat, a Smart que fornece a cadeira de rodas e a Bodytech que libera a academia para treinarmos. Fora isso, temos a Bolsa Atleta (R$ 3.100/mês). Tentamos enviar vários projetos para empresas em busca de patrocínio, mas não conseguimos nada.

Rejane: Infelizmente as empresas procuram modalidades mais coletivas para se ter um número grande de atletas de visibilidade. O tênis por ser um esporte individual e não tão popular quanto o futebol, a natação ou atletismo, já possui esta restrição. Nestes esportes uma única pessoa pode conseguir várias medalhas o que não acontece no tênis. Temos que lutar muito para conseguir uma ou duas medalhas.

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Bem Sacado: Vocês já jogaram fora do país? Existe alguma diferença na infraestrutura com relação ao do Brasil?

Rejane e Natalia: Jogamos sim e é muito diferente. Na Europa e nos EUA eles tem tudo para o deficiente. A infraestrutura é gigantesca. Eles estudam no mesmo lugar que treinam. O estudo é incentivado pelo esporte e vice-versa. Possuem técnicos disponíveis 24hrs. Quando temos eventos, eles oferecem tudo: desde a hospedagem, veículos para transporte, alimentação e banheiros adequados.  No Brasil tudo é sempre muito restrito. Muitas vezes temos uma única van com horários restritos para locomoção para todos os atletas. Muitas vezes temos uma única van e um único banheiro adaptável para 40 atletas. Além disso muitas vezes nos ônibus adaptáveis as rampas não funcionam e o próprio motorista não sabe utilizá-las.

Bem Sacado: Quantas vezes por semana vocês jogam tênis e se fortalecem?

Natalia: Terça e quinta faço musculação, Segunda e Quarta pilates, sábado spinning e durante a semana ainda faço natação. So descanso no Domingo.

Rejane: Depois de várias lesões, hoje treino três vezes por semana e faço academia e fisioterapia. Tento me poupar nos treinos para ficar mais completa para os torneios.

Bem Sacado: Além desta atividade esportiva, vocês fazem outra coisa?

Rejane: Trabalho em um escola

Natalia:  Só faço tênis

Bem Sacado: Vocês têm alguma outra meta a cumprir?

Rejane e Natalia:  A nossa meta é trazer o melhor resultado possível no Rio 2016. Nosso objetivo é conseguir um pódio!

Confira um vídeo que fizemos com as meninas:

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